sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Meu átrio

'Dói assim?' é claro que dói! Me contorci como resposta. Ela deve ter entendido como um não, ou como um movimento de prazer porque continuou forçando. Arqueei as costas, o joelho direito tremeu e eu senti o suor que colava minha coxa no áspero do colchão sem lençol. Ela continuava a me perguntar: dói assim? É claro que sim, eu queria gritar! Mas meu pulmão não se abria ao ar e minha boca não articulava palavra alguma. Um arrepio de dor correu a linha da minha já-doida-de-muito-tempo-sem-carinho-massagem-muita-saudade coluna, e eu devo ter feito alguma careta. As primeiras gotinhas de sangue começavam a brotar e nem mesmo aquele cheiro me levou pra longe do processo e estava muito escuro, então o quente de um liquido deve ter sido confundido com outro, porque eu só sentia o frio - porque nada que vem de outra pessoa que não você pode ser quente - entrando cada vez mais fundo. Dói assim? Ela me perguntou com algum vocativo que me pareceu xingamento enquanto me abria a algum orifício que pudesse cabe-la. Minha cabeça rodava e não havia mais pensamento, sentimento ou perspectiva de fim que conseguisse me prender a lucidez. Ela roçava uma das coxas na minha e pressionava o quadril contra o meu. A essa hora tudo doía e não doía mais, na estafa do que fere muito e adormece em si mesmo para resistir mais e não desistir nunca. Eu não reagia e entre um movimento hábil, porque só alguém que já fez isso antes poderia me submeter sem sentir remorso algum, e um suspiro que não soube definir a que se destinava, ela me abria ao que a essa altura parecia um ósculo de um daqueles animais que nem animais são e que só existem para ficarem lá paradinhos esperando a água passar por eles ou qualquer coisa que só podia ter um nome muito feio.
O buraco que fazia não existir barreira entre o vazio de dentro e o vazio de fora, já era grande. Dessa vez ela não me perguntou se doía, levantou os olhos pra mim e sorriu, sincera e docemente e se diminuiu até conseguir entrar inteira. Pensei em uma dúzia de referências e como essa cena ficaria bonita se tocasse ride da Lana, mas sem a introdução porque isso me faria chorar, pensei em como eu iria gostar de ver esse filme com você e te dizer que faria isso, mas não desse jeito porque pra mim o amor sempre entrou pela boca e eu também não suporto te ver sangrar, por mim.
Mas não tinha você nem filme e nem cena linda e tela grande de cinema imitando um amor menos amor do que o nosso. Tinha ela, pequena, me abrindo sem dó, pra deitar quieta e quase imperceptivelmente no meu coração.
Como se luta contra um inimigo que a gente não percebeu estar? Observo em silêncio meu corpo ser invadido, enquanto permanece muito ocupado em cicatrizar os buracos por onde o amor inevitavelmente escorre, sem esvair. Pena.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Solstício

Estou sentada na areia, meu cabelo está sujo de alguns dias e preso em um coque bem alto. Fios dançam com o vento, pensamentos também. Só há cheiro de mar nos meus pulmões e eu quase me sinto genuinamente feliz.
Uma pessoa me disse isso ontem. Antes de ganhar todos aqueles arranhões e marcas roxas, alguém olhou com olhos muito brilhantes perto dos meus e disse que eu estava muito bem. Sorri e arrastei ou me deixei arrastar pra cama dela.
Eu não respondi aquilo, eu não poderia responder aquela pergunta.
Me assusta. Não importa onde ou quando ou quanto ou quem, mas o questionamento que persegue os de muito drama e olheira me apavora e eu quero fugir e eu fujo.
Aquela dor voltou. Maior e mais forte do que eu jamais poderia lembrar. Entre pensamentos e pontos finais eu vejo fins e parto na contra mão deles por medo.
Estou mais corajosa agora? Não poderia lembrar. Escondo os cortes como antes, julgo outros, critico, aponto os erros e ninguém beija o revés dos meus pulsos.
Tenho nojo do sangue e o banheiro é meu templo. Escorre lento e quente, não vivo, nunca vivo! Nada em mim poderia estar vivo agora.
Entro devagar e molho só os tornozelos. Seria fácil, poderia parecer acidente. Eu já tentei isso alguma vez? As tentativas não existem, alguém na minha cabeça é que responde. Revejo possibilidades. Eu já fiz esses planos antes?
Não escreveria carta alguma, nem me desculparia.
Amei o que pude e fui embora quando o amor virou menor que o seu semelhante, a dor.
Meu coração desata a bater e escuto tantas cobranças sobre a beleza, o sucesso, a lucidez, sobre ela mesma pessoa que me fala e que sentiria muito! Como eu não penso nisso?
Já pensei eu? Tento me lembrar que raíz foi essa tão grande que me cresceu antes e me fez firme até agora. Me sinto como flor de laranjeira no fim da primavera, pronta pra cair.

Não deve demorar muito agora
logo logo já é verão.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Nudez

Deveria haver algum verbo que dissesse da saudade que sinto dos seus olhos úmidos em noites de inverno, cujos graus adoeciam meus poros, minha língua, e meu ar inspirado. Algo do tipo “precisodevocêaqui” mas com a terminação em “ar”, como se todo o meu ar, de fato, fosse o final das palavras reveladas a você. Como se eu te emprestasse as válvulas do meu peito aberto e proferisse, sem receios, que a vida só ficava mais bonita quando nós beijávamos a ponta do infinito e abríamos os olhos para enxergar o pecado real da humanidade, que consistia nas pequenezas da vida cotidiana, nos dias que não passavam, nas manhãs atordoadas de pessoas que pesavam e que precisavam de paz. Sem medo nenhum de te contar, sussurrando, que nos livros de tarô não havia rosto tão bonito quanto o teu e que teus pés, mesmo que errantes, guiavam qualquer mapa-astral, sendo ruins ou muito ruins. Dizer que já havia procurado em todos os cantos das esquinas mas que não tinha encontrado alguém com uma luz imensa, uma luz que ecoava daqui até o sul, até o norte, até o outro lado do planeta e que seu eu caçasse um pouco mais, não acharia nada comparado ao seu riso que parece um hino nacional cantado por milhões de vozes dentro de algum espaço feliz. Deveria conter alguma palavra que explicitasse o quanto sinto falta, ausência, vazio, quando você não está e a viagem no ônibus torna-se cansativa, e as músicas ficam chatas e eu nem quero mais resolver problemas matemáticos, não só porque não sei como também porque não gosto de nada que subtrai ou multiplica - ou adia, ou retrocede. Prefiro o agora cru, socando minha cara e me desestabilizando, prefiro a morte dura das coisas que foram e abandonaram, das pessoas que só deixaram fotos e dias chuvosos na lembrança. Nada do que vai pra sempre fica tão explícito quando grito teu nome e me perco entre tantas palavras, entretantas e tantas falas absurdas de verbos que gostaria que existissem só para conter todo este grito, esta dor que não mostro a ninguém, este abismo que diz que você não volta, e que tudo foi um engano com gosto de verdade. Se te parece loucura, vê escuta e reage a isso, replica meu verbo, meu pronome possessivo e minha fala usurpadora no mundo.

Com Amor.
Sempre sua,
M.

domingo, 17 de novembro de 2013

Estou olhando da janela que usávamos pra olhar o céu mas nem lua, nem cama, nem eu, nem a pessoa ao meu lado são iguais. A janela ainda é.
A menina ao meu lado chora e eu também tenho os olhos um pouco borrados, mas o céu ta lindo e isso de algum jeito me levou pro seu lado.
Gostaria de te encontrar pra dizer que todas essas coisas não são mais as mesmas, mas acho que você já sabe e agradece por isso, e de alguma forma todo esse encadeamento de pensamentos me deixa triste. Volto a chorar e ela me olha curiosa, reviro os olhos e encontro o céu.
Gostaria de te encontrar, não esses encontros casuais de comprimentos por sobrancelhas ou um sorriso despretensioso e esforço de Hércules pra continuar qualquer conversa e fingir que não te vi.
Gostaria de te encontrar pra que num abraço real meu coração encontrasse seu par e voltasse a ter qualquer batimento e calor que a muito me abandonou.
Gostaria de te encontrar porque olhar pra você é como chegar em casa, e eu ando muito cansada de dormir em qualquer lugar que pareça confortável, pra dormir ou destruir.
Gostaria de te encontrar não pra dizer nada e até pra dizer, mas pra poder não dizer, sem que pareça problema ou tenha problema ou seja problema.
Volto a olhar pro céu, e a menina já parou de chorar e eu não percebi nem porque nem quando.
Volto a olhar pro céu e eu gostaria de te encontrar pra dizer que a janela ainda é igual, a minha saudade e amor também.



Sempre sua,
M.

domingo, 27 de outubro de 2013

Que a beleza não seja chegada.
Que o Amor não seja prisão da prática.
Que a imagem não seja real.
Que a beleza não seja prática.
Que a prisão não seja da imagem.
Que o Amor não seja chegada.
Que a imagem seja real.
Que a beleza seja prática.
Que a prisão seja imagem.
Que o amor seja chegada.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Do que não deu pra guardar.

Te escrevo com a mesma esperança tola de antes, mas não sei o que faria se as mesmas coisas voltassem a acontecer. Passei pela sua rua ontem à noite. Não sei como fui parar lá e na verdade não sei se ainda é onde você mora, mas eu tinha um spray e escrevi coisas de amor em um muro pra você, ler, mas também não sei por que fiz isso. Ainda estou parada naquele ponto, mas fiz muitas rotações desde que o nosso tudo aconteceu e acabou. Tenho tentado encher o espaço que você deixou com muitas coisas, mas não tem vazio nem pra bebida nem pra novas coxas, então tenho transbordado bastante.
Ontem logo depois dos meus versos de amor escrito em preto e cimento eu senti uma tontura, daquelas que faz eu parecer a bela adormecida, acordei umas horas depois sem saber também como tinha parado lá, tinha uma moça do meu lado, não "ao" só "do" mesmo, ela me olhou com aqueles olhos misturando pena e carinho. Algum tempo depois ela estava com as duas pernas muito abertas numa posição que me deixava sem ar e isso me deixou triste. Levantei e fumei olhando pro céu. Você viu a lua de ontem? A fumaça do meu cigarro dançou com o ar e algumas lágrimas saltaram sem controle de dentro de mim.Tenho bebido muito e tentado ao máximo ficar fora de tudo que é nosso, seu, eu. Tenho conseguido, não muito bem. Não tem sido fácil te esquecer, mesmo leve e desprendido, algumas imagens me vem à cabeça. Você perdendo o biquíni no meio do mar, seus cabelos molhados e cheios de sal cobrindo seu rosto desesperado. Quando subia nas cadeiras para alcançar os objetos nos armários. Quando ralou o joelho ao cair da bicicleta. Eu só lembro de ter a certeza de que me amava quando precisava de mim. Eu caí no erro de achar que só se ama uma vez na vida. E aí eu te amei por uma vida inteira. Me desesperei, quase entrei em colapso. Os prazos se acumulando na mesa e você me dizendo que estava de partida da minha vida. Vida da qual achei que até eu queria sair. Eu joguei, muitas vezes, para cima de você o peso das suas próprias palavras. Antes, sem nem saber que as palavras não tem peso. São entes leves. O peso é o que está na gente. Eu te cobrei o número de vezes que repetiu "para sempre". E só depois fui perceber que a eternidade está no coração de quem sente. Foi o que deveria ser - e assim são todas as coisas. Parei o coração. No meio das recordações. No meio do, que virou nada. Te vi ser borboleta e te vi voar de mim para bem longe. Me vi ser raio de sol, no maior esforço para atravessar e tornar translúcidas as folhas, e voltar para mim. Ali, eu fui tão maior. Fui tão eu. E eu é uma palavra tão pequena para o ser. O eu é uma palavra tão pequena pra o que sou. Ainda que agora, desde o começo, isso não seja necessário já que vai assinado logo abaixo que eu continuo sua.

Sempre,
M.