sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Do que evitamos e registramos. Parte I

Estou sentada num banco alto de balcão e o meu salto encaixa exatamente naquele pedaço de madeira feito para sustentar as partes que me mantém confortável e segura. Não há pedaço de nada que me ajude a sustentar o edifício que eu sou. 
Tem um copo vazio na minha frente e duas pedras de gelo, que já estão se despedindo dessa forma de ser e se transformando lentamente em outra. Tento me derreter junto, mas eu estou tão sóbria e difícil de descontrolar hoje. Meu garçom se apoia nos cotovelos vez ou outra e olha para mim, meio puxando conversa, meio puxando uma nova dose. Chamo-o de meu, mas nem ao menos sei se ele se chama Tony, Tônio, Tom, Tonho ou qualquer som anasalado desses. Chamo-o de meu, mas é pelo nome que tem assinado no seu antebraço e por ele saber sempre do que eu preciso para beber. 
Nem todas as histórias de amor são românticas, algumas são tristes, ele me disse na primeira vez que entrei no bar com porta de convés. Sorri, discordei por dentro, mas eu estava bêbada demais triste demais sentimental demais sozinha demais para ter este tipo de conversa com um desconhecido, então só sentei e pedi a mesma coisa que venho pedindo todas as vezes que me sento neste mesmo lugar. Eu planejava perder a memória antes de secar o próximo copo, mas estava quente esse dia – um problema no sistema de ar, ou coisa assim – e meu garçom subiu uma das mangas da camisa. Num momento eu estava querendo esquecê-la e no outro ela estava lá, se agarrando com tentáculos sujos fortes e implacáveis em todos os cantos da minha memória, repetindo sempre: não adianta nem tentar me esquecer. 
A visão daquele nome registrado no corpo de outra pessoa fez o meu tremer e solidificar, mas ao mesmo tempo me trouxe à sobriedade – do álcool e não da vida. As histórias mais lindas de amor são tristes, eu disse para ele depois de um longo silêncio de olhar rancoroso para aquele amor tatuado. Recebi de volta uma pausa austera e depois percebi um relâmpago genuinamente triste nos seus olhos, então pedi que me contasse a história do nome. Essa é uma história triste, garota. Sorri, normalmente as que envolvem as mulheres são, eu disse já de pé, abrindo o zíper do meu vestido e exibindo aquela letra e o desenho complicado que envolvia tudo aquilo. 
Um momento de surpresa com as sobrancelhas e no segundo seguinte uma gargalhada alta, uma dose de graça para mim e uma para você.
Viramos o copo e surgiram lágrimas pequenas no canto dos meus olhos.
Deve ter sido a bebida. 

Ou não. 
Aquele estalar de copos nunca me sai da cabeça.

Um brinde às Julianas, aquelas filhas da puta.
Não podia concordar mais.



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